Os
livros foram algo muito presente no decorrer da minha infância e estavam
constantemente as mãos dos mais velhos no casarão dos meus avós, onde vivi
grande parte da minha vida. O meu avô apesar de não contar com estudo algum, de
ser extremamente severo e sistemático, sempre fez questão de oferecer estudo em
colégio interno para seus filhos. Os meus dias contavam com a presença e ajuda
das tias e da avó, posto que minha mãe lecionava e permanecia fora grande parte
do tempo.
Antes de ir para a escola estava acostumada a ouvir muitas histórias
encantadas, também sabia o nome das cores, contar numerais em português até o
vinte e até em inglês corretamente, também sabia reconhecer muitas letras antes
dos cinco anos de idade e escrevê-las foi somente ao realizar o primeiro ano
primário. Por sorte acabei frequentando uma escola na minha cidade mesmo, uma
do governo, o que para mim foi melhor do que esperava, pois tinha muito medo de
ser uma interna em colégios de freiras. Era levada à escola pela minha avó
todos os dias e logo ao primeiro ano escolar, toda mordomia que tinha em casa
acabava assim que adentrava os portões altos da Escola Estadual dos anos
sessenta.
Como os costumes da época não nos davam direito a questionamentos, a educação
acontecia de maneira comum, antes de irmos para as nossas salas, nos dirigíamos
até o pátio central e em fileiras, nos distanciávamos corretamente uns dos
outros, nos colocávamos de maneira correta, em sentido de respeito para o
cântico do Hino Nacional Brasileiro, o que eu não sabia e também não perguntava
por achá-lo muito complicado e longo demais, entretanto com o passar dos olhos
rígidos e contraídos da professora, o medo me obrigava a mexer os lábios num
“faz de conta”, conseguindo soltar o som somente no final de algumas
palavras.
Em sala pronta para a alfabetização, o sistema adotado fora o da Cartilha
Caminho Suave, de Branca Alves de Lima, cujo procedimento aconteceu através de
memorização e associação das letras às imagens, uma abordagem estruturalista
que previa a aquisição da língua por meio da imitação e construção de hábitos,
de modelos estabelecidos, onde o ensino da Língua Portuguesa não focava a
interação, tempo este que não se falava em linguística da enunciação.
Senti-me perdida neste mundo sem sonhos, sem as palavras cheias de encantamento
das leituras de minha mãe ou de minhas tias, das historinhas contadas pela
minha avó ao ligar as letrinhas para a formação das palavras. O mundo que
contei tanto nos dedos para começar tornou-se um horror a partir do momento que
senti o peso desse sistema sem luz, distante da interatividade e da abordagem
dialógica.

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