sexta-feira, 7 de junho de 2013

CRISTINA APARECIDA NICOLETTI TURAZZA



       Os livros foram algo muito presente no decorrer da minha infância e  estavam constantemente as mãos dos mais velhos no casarão dos meus avós, onde vivi grande parte da minha vida. O meu avô apesar de não contar com estudo algum, de ser extremamente severo e sistemático, sempre fez questão de oferecer estudo em colégio interno para seus filhos. Os meus dias contavam com a presença e ajuda das tias e da avó, posto que minha mãe lecionava e permanecia fora grande parte do tempo. 
       Antes de ir para a escola estava acostumada a ouvir muitas histórias encantadas, também sabia o nome das cores, contar numerais em português até o vinte e até em inglês corretamente, também sabia reconhecer muitas letras antes dos cinco anos de idade e escrevê-las foi somente ao realizar o primeiro ano primário. Por sorte acabei frequentando uma escola na minha cidade mesmo, uma do governo, o que para mim foi melhor do que esperava, pois tinha muito medo de ser uma interna em colégios de freiras. Era levada à escola pela minha avó todos os dias e logo ao primeiro ano escolar, toda mordomia que tinha em casa acabava assim que adentrava os portões altos da Escola Estadual dos anos sessenta.           
        Como os costumes da época não nos davam direito a questionamentos, a educação acontecia de maneira comum, antes de irmos para as nossas salas, nos dirigíamos até o pátio central e em fileiras, nos distanciávamos corretamente uns dos outros, nos colocávamos de maneira correta, em sentido de respeito para o cântico do Hino Nacional Brasileiro, o que eu não sabia e também não perguntava por achá-lo muito complicado e longo demais, entretanto com o passar dos olhos rígidos e contraídos da professora, o medo me obrigava a mexer os lábios num “faz de conta”, conseguindo soltar o som somente no final de algumas palavras. 
          Em sala pronta para a alfabetização, o sistema adotado fora o da Cartilha Caminho Suave, de Branca Alves de Lima, cujo procedimento aconteceu através de memorização e associação das letras às imagens, uma abordagem estruturalista que previa a aquisição da língua por meio da imitação e construção de hábitos, de modelos estabelecidos, onde o ensino da Língua Portuguesa não focava a interação, tempo este que não se falava em linguística da enunciação. 
          Senti-me perdida neste mundo sem sonhos, sem as palavras cheias de encantamento das leituras de minha mãe ou de minhas tias, das historinhas contadas pela minha avó ao ligar as letrinhas para a formação das palavras. O mundo que contei tanto nos dedos para começar tornou-se um horror a partir do momento que senti o peso desse sistema sem luz, distante da interatividade e da abordagem dialógica.  

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